Cultura
Jornalista, cineasta e escritor Wendell Stein fala da nova obra

Wendell Stein, ‘O Crepúsculo da Inércia’: tecnologia como espelho da alma humana

o atingir a marca histórica de 15 livros publicados, o jornalista, cineasta e escritor Wendell Stein consolida-se como um dos maiores produtores multiplataforma do Brasil. Este feito ganha uma dimensão ainda mais extraordinária quando se considera que Stein é um autista nível 2 de suporte. Sua capacidade de hiperfocagem e produtividade resultaram em um volume de obras raro no cenário nacional, unindo rigor técnico e profundidade narrativa.

Em sua nova obra, “O Crepúsculo da Inércia”, ele projeta um futuro baseado nas variáveis tecnológicas de 2026 para entender quem seremos em 2056. Nesta entrevista, Stein mergulha nos conceitos filosóficos e científicos que regem sua ficção especulativa.

Tribuna Liberal: Wendell, chegar ao 15º livro é um marco para qualquer escritor. O que “O Crepúsculo da Inércia” nos diz sobre o futuro da nossa espécie?

Wendell Stein: O livro funciona como um “despacho de campo” enviado diretamente de 2056. Ele explora a ideia de que nos equipamos com uma tecnologia digna de deuses, mas ainda precisamos aprender a habitar o mundo de forma plena. Eu foco no fim do humano como categoria estritamente biológica. No primeiro capítulo, por exemplo, abordo a “Continuidade Sintética”, onde a consciência pode ser transferida para sistemas cibernéticos. O ponto central é o “Paradoxo do Fantasma”: se você transfere sua mente para uma máquina, quem acorda do outro lado é você ou apenas uma cópia perfeita com seus dados?

O conceito de “Algocracia” aparece com força no livro. Do que se trata essa visão?

A algocracia é a gestão da vida através dos algoritmos. No livro, projeto um mundo onde a eficiência técnica é tão absoluta que acaba por “devorar” a subjetividade humana. Vivemos em um ambiente de “fantasmas funcionais”, onde a produtividade e a lógica das máquinas ditam o ritmo da nossa existência. A obra é um convite para refletirmos se estamos perdendo nossa essência em troca dessa eficiência fria.

No Capítulo III, você aborda a “Arquitetura do Esquecimento”. Como essa ideia se conecta com a nossa dependência digital atual?

Esse capítulo é um alerta sobre a nossa memória externa. Hoje, delegamos nossas lembranças e conhecimentos aos bancos de dados e nuvens. No livro, eu projeto as consequências de um mundo onde o ser humano perde a capacidade de reter a própria história, tornando-se dependente de próteses cognitivas. Para um autor autista, onde a memória muitas vezes funciona de forma visual e detalhada (hiper-realista), ver a sociedade abrir mão da memória biológica é ver a perda da identidade. A “Arquitetura do Esquecimento” é a construção de um mundo sem passado, onde o presente é apenas um fluxo infinito de dados sem contexto.

Outro ponto fascinante é o conceito de “Geometria do Isolamento” em um dos capítulos finais. O que isso revela sobre as cidades de 2056?

Eu descrevo como o design urbano do futuro será planejado para o isolamento eficiente. As cidades deixam de ser pontos de encontro para se tornarem colmeias de produtividade individualizada. É a tecnologia criando barreiras físicas e sensoriais. Como alguém que lida diariamente com as questões de suporte do nível 2 de autismo, eu entendo o isolamento, mas no livro eu mostro que esse “isolamento técnico” é diferente: ele é desprovido de humanidade. É a geometria de um mundo onde as pessoas estão conectadas por cabos, mas separadas por abismos de empatia.

Você é um autor que transita entre o cinema, o jornalismo e a literatura. Como sua condição de autista nível 2 influencia essa produtividade vasta e multiplataforma?

O autismo traz uma forma única de processar o mundo e, no meu caso, uma capacidade de hiperfoco que direciono totalmente para a criação. Ser um produtor multiplataforma no Brasil já é um desafio por si só, mas dentro do espectro, isso se torna minha linguagem principal. A arte e a escrita são os canais por onde organizo o caos do mundo exterior. Essa produção em escala — 15 livros, filmes e projetos diversos — é a prova de que a neurodivergência pode ser um motor de criação potente e original.

Seu livro infantil, “O Pé de Sol”, também é citado como um contraponto a essa visão densa do futuro. Como essas obras se conectam?

Ambas tratam de conexão. Enquanto O Crepúsculo da Inércia alerta para o isolamento tecnológico e a perda da biologia, O Pé de Sol foca no valor pedagógico e lúdico da literatura. São faces da mesma moeda: a tentativa de preservar o que há de mais humano em nós — seja através da imaginação infantil ou da ficção científica especulativa.

O que te motiva a continuar criando em tantas frentes diferentes, mesmo diante dos desafios sensoriais e sociais do dia a dia?

A convicção de que a arte é a única coisa que nos impede de virar meros subprodutos de dados. O futuro já chegou, ele só está pessimamente distribuído. Para mim, produzir é um ato de resistência poética. Se o mundo caminha para uma inércia técnica, eu uso minha criatividade para gerar movimento e questionamento.

 

Jornalista, cineasta e escritor Wendell Stein fala da nova obra 

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