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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Alergia ao leite e intolerância à lactose: entender a diferença muda o cuidado

Muita gente usa as expressões “alergia ao leite” e “intolerância à lactose” como se fossem a mesma coisa, mas elas representam condições muito diferentes no corpo e exigem cuidados distintos. Embora ambas possam causar desconforto após o consumo de leite e derivados, a origem, os mecanismos e as consequências dessas condições são distintos.

A alergia à proteína do leite de vaca acontece quando o sistema imunológico reconhece as proteínas do leite, como caseína ou proteínas do soro, como algo estranho e reage a elas. Essa resposta é mediada pelo sistema imunológico e pode envolver diferentes tipos de mecanismos, incluindo aquele que usa anticorpos do tipo IgE. Por isso, a alergia pode afetar não apenas o sistema digestivo, mas também a pele e o sistema respiratório, e em casos mais graves pode levar a sintomas sistêmicos que exigem atendimento médico rápido. Essa condição é tipicamente mais comum na infância e muitas vezes se manifesta logo nos primeiros meses de vida, especialmente após a introdução de fórmulas ou alimentos que contenham leite de vaca.

Já a intolerância à lactose não envolve o sistema imunológico. Nesse caso, o problema está na digestão do açúcar natural do leite, chamado lactose. Para que o corpo digira a lactose adequadamente, ele precisa de uma enzima produzida pelo intestino chamada lactase. Quando há insuficiência ou ausência dessa enzima, a lactose não é quebrada e não é absorvida no intestino delgado, permanecendo no trato gastrointestinal. Esse açúcar que não foi digerido é metabolizado pelas bactérias do intestino grosso, o que pode gerar sintomas como dor abdominal, distensão, gases, diarreia ou desconforto pouco tempo depois de ingerir produtos com lactose.

As diferenças entre essas duas condições também se refletem nos sintomas. Um dos motivos pelos quais elas são frequentemente confundidas é que ambas podem causar sintomas digestivos, como dor abdominal e diarreia. No entanto, a alergia envolvendo o sistema imunológico pode também provocar urticária, coceira na pele, inchaço dos lábios ou dos olhos, chiado no peito e, em casos mais graves, dificuldade respiratória. Esses sintomas podem surgir logo após o consumo de leite ou em um intervalo de poucas horas. Já a intolerância à lactose tende a se manifestar quase sempre através de sinais digestivos e de forma proporcional à quantidade de lactose ingerida e ao grau de deficiência de lactase de cada pessoa.

Há também diferenças em relação à idade em que cada condição costuma se manifestar. A alergia à proteína do leite de vaca é muito mais comum em lactentes e crianças pequenas. Estudos clínicos mostram que muitos bebês com essa alergia apresentam sintomas nos primeiros meses de vida e que, com acompanhamento adequado, é comum que desenvolvam tolerância ao longo dos primeiros anos. Grande parte das crianças deixa de apresentar sintomas por volta dos três a cinco anos de idade.

A intolerância à lactose, por sua vez, tende a surgir mais frequentemente em adultos ou em idades posteriores à infância. Em muitas populações, a produção de lactase diminui naturalmente com a idade, o que explica por que muitos adultos desenvolvem intolerância ao longo da vida. Existem diferentes graus de intolerância: algumas pessoas toleram pequenas quantidades de lactose, enquanto outras precisam evitar quase todos os alimentos com lactose.

O diagnóstico adequado faz toda a diferença, porque as abordagens são diferentes. Na alergia à proteína do leite de vaca, há indicação de eliminar completamente o leite e seus derivados da dieta, sempre com orientação profissional. Na intolerância à lactose, muitas vezes é possível ajustar a dieta, utilizar produtos com lactose reduzida ou com adição da enzima lactase, garantindo que nutrientes importantes como cálcio e vitamina D sejam mantidos.

Entender essas diferenças evita confusões, restrições desnecessárias e atrasos no tratamento. Informação clara, baseada em ciência e explicada de forma acessível, é parte fundamental do cuidado com a alimentação e com a saúde ao longo da vida.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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