Coluna Nutrição Além do Prato
O problema dos termogênicos não é o que eles fazem.
É o que prometem fazer
Quem nunca viu uma propaganda prometendo acelerar o
metabolismo, aumentar a queima de gordura e potencializar o emagrecimento?
Basta chegar o verão ou surgir a vontade de perder peso para que os
termogênicos voltem aos holofotes. Eles aparecem como a solução capaz de
transformar resultados e encurtar caminhos. Mas será que o efeito real
acompanha tudo aquilo que o marketing promete?
Antes de responder essa pergunta, é importante entender que
“termogênico” não é uma substância única. Existem diferentes compostos
utilizados com esse objetivo, sendo a cafeína aquele com maior respaldo
científico. Ela pode, de fato, aumentar temporariamente o estado de alerta,
reduzir a percepção de esforço durante o exercício e promover um discreto
aumento do gasto energético. A palavra mais importante dessa frase, porém, é
“discreto”. Embora esse efeito exista, ele costuma ser muito menor do que a maioria
das pessoas imagina e, com o uso frequente, tende a diminuir devido ao
desenvolvimento de tolerância.
Isso significa que termogênicos não funcionam? Não
exatamente. A ciência mostra que alguns deles podem exercer efeitos
fisiológicos mensuráveis. O problema é que esses efeitos, isoladamente, estão
longe de justificar as promessas de emagrecimento acelerado frequentemente
utilizadas nas campanhas de divulgação. Na prática, a maior parte da perda de
gordura continua dependendo de fatores muito mais relevantes, como alimentação,
nível de atividade física, sono, manejo do estresse e consistência ao longo do
tempo.
Existe ainda um aspecto que recebe pouca atenção e que
talvez seja o mais importante de todos: o impacto comportamental. Quando uma
pessoa acredita que uma cápsula será responsável pelos resultados, é natural
que ela passe a atribuir menos importância aos hábitos que realmente determinam
o sucesso do tratamento. Aos poucos, a alimentação deixa de ser prioridade, o
planejamento perde espaço e a expectativa se concentra em um recurso que
deveria ocupar apenas um papel complementar.
Também é importante lembrar que suplementos termogênicos não
são isentos de riscos. Dependendo da composição, da dose utilizada e da
sensibilidade individual, podem provocar palpitações, aumento da frequência
cardíaca, ansiedade, tremores, insônia e desconfortos gastrointestinais. Em
pessoas com doenças cardiovasculares, hipertensão não controlada ou outras
condições clínicas, o uso sem avaliação profissional pode representar riscos
importantes. O fato de um produto ser vendido como suplemento não significa,
automaticamente, que seja indicado para qualquer pessoa.
Outro ponto que merece reflexão é a forma como esses
produtos costumam ser divulgados. Expressões como “acelera o metabolismo”,
“queima gordura” ou “seca barriga” simplificam um processo extremamente
complexo. O metabolismo humano não funciona como um interruptor que pode ser
ligado ou desligado por uma única substância. O emagrecimento é resultado de
uma série de adaptações fisiológicas e comportamentais que acontecem de maneira
integrada, e não de um único mecanismo isolado.
Talvez a pergunta mais importante não seja se um termogênico
funciona, mas se ele faz diferença suficiente para ocupar o protagonismo que
muitas vezes recebe. Para a maioria das pessoas, investir em uma alimentação
adequada, manter uma rotina de atividade física, dormir melhor e construir
hábitos consistentes produzirá um impacto muito maior do que qualquer aumento
modesto no gasto energético promovido por um suplemento.
A ciência não mostra que termogênicos são milagres. Mostra
que, quando existe indicação, eles podem funcionar como uma ferramenta
complementar dentro de um planejamento muito maior. E talvez essa seja a
principal mensagem: nenhuma cápsula é capaz de compensar a ausência dos pilares
que realmente sustentam a saúde e o emagrecimento.
Porque, no fim das contas, o problema dos termogênicos não é o que eles fazem. É o que prometem fazer.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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