Coluna Nutrição Além do Prato
Frio, rotina e alimentação: por que o cuidado fica mais difícil nessa época?
Com a chegada das temperaturas mais baixas, é comum perceber
mudanças no apetite, na rotina e até na disposição para cuidar da alimentação.
Muitas pessoas relatam mais fome, maior vontade de comer doces, massas e
preparações mais calóricas. Outras percebem uma queda importante no consumo de
água, frutas e vegetais.
E, embora isso pareça apenas uma consequência natural do
frio, existe um ponto importante por trás desse cenário: o problema normalmente
não é a fome em si. É a desorganização que o frio frequentemente provoca na
rotina alimentar.
Existe, sim, uma tendência fisiológica de buscarmos
alimentos mais quentes e confortáveis em períodos frios. Além disso,
preparações mais densas costumam gerar sensação de aconchego e recompensa
emocional, algo que também influencia nossas escolhas alimentares.
O problema começa quando esse movimento natural vira
desequilíbrio constante.
É muito comum que, nessa época do ano, a alimentação fique
menos variada. O consumo de saladas, frutas e vegetais crus costuma diminuir.
Muitas pessoas passam longos períodos sem beber água porque simplesmente não
sentem sede. E, junto disso, aparece uma maior busca por alimentos
ultraprocessados, lanches rápidos e preparações mais calóricas no dia a dia.
Outro fator importante é o impacto do frio no comportamento.
A disposição para cozinhar, organizar refeições e até manter uma rotina
estruturada tende a cair. O autocuidado vai ficando mais automático, mais
negligenciado e, muitas vezes, condicionado à motivação.
Mas existe uma diferença importante entre adaptar a
alimentação ao frio e abandonar completamente a estrutura alimentar.
Cuidar da alimentação nessa época não significa evitar
alimentos mais quentes, sopas, massas ou preparações mais confortáveis. Pelo
contrário. O segredo está na forma como essas escolhas são construídas dentro
da rotina.
Uma sopa, por exemplo, pode ser extremamente nutritiva
quando inclui proteínas, legumes, verduras e boas fontes de carboidrato. Frutas
podem aparecer aquecidas, em preparações assadas ou combinadas com canela e
aveia. Vegetais podem ser incluídos em refogados, cremes e pratos quentes, sem
que seja necessário depender exclusivamente de saladas frias.
A hidratação também merece atenção especial. No frio, a
percepção de sede costuma diminuir, mas a necessidade de água continua
existindo. E esperar sentir sede para beber água normalmente não funciona nessa
época do ano.
Além disso, é importante lembrar que chás, apesar de serem
aliados interessantes, não substituem completamente a ingestão de água ao longo
do dia.
Outro ponto importante é entender que o frio não “estraga”
resultados. O que costuma comprometer a saúde e a alimentação é a perda de
regularidade, organização e equilíbrio por períodos prolongados.
Na prática, pequenas estratégias costumam funcionar muito
melhor do que regras radicais. Ter preparações congeladas, facilitar o acesso a
alimentos nutritivos, adaptar refeições para versões quentes e manter uma
rotina mínima de cuidado faz muito mais diferença do que tentar seguir um
padrão perfeito.
Porque saúde não depende de uma estação específica. Mas a
forma como nos adaptamos a cada fase da rotina pode impactar muito nossa
relação com a alimentação.
E talvez esse seja o principal ponto.
No frio, muitas pessoas esperam sentir sede para beber água,
disposição para se cuidar e motivação para organizar a alimentação. E
normalmente nenhuma dessas coisas aparece espontaneamente.
Por isso, mais do que motivação, o que realmente sustenta o cuidado nessa época do ano é estratégia.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada
pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP.
Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida,
sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em
seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida
real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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