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Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade

Coluna Nutrição Além do Prato

Frio, rotina e alimentação: por que o cuidado fica mais difícil nessa época?

Com a chegada das temperaturas mais baixas, é comum perceber mudanças no apetite, na rotina e até na disposição para cuidar da alimentação. Muitas pessoas relatam mais fome, maior vontade de comer doces, massas e preparações mais calóricas. Outras percebem uma queda importante no consumo de água, frutas e vegetais.

E, embora isso pareça apenas uma consequência natural do frio, existe um ponto importante por trás desse cenário: o problema normalmente não é a fome em si. É a desorganização que o frio frequentemente provoca na rotina alimentar.

Existe, sim, uma tendência fisiológica de buscarmos alimentos mais quentes e confortáveis em períodos frios. Além disso, preparações mais densas costumam gerar sensação de aconchego e recompensa emocional, algo que também influencia nossas escolhas alimentares.

O problema começa quando esse movimento natural vira desequilíbrio constante.

É muito comum que, nessa época do ano, a alimentação fique menos variada. O consumo de saladas, frutas e vegetais crus costuma diminuir. Muitas pessoas passam longos períodos sem beber água porque simplesmente não sentem sede. E, junto disso, aparece uma maior busca por alimentos ultraprocessados, lanches rápidos e preparações mais calóricas no dia a dia.

Outro fator importante é o impacto do frio no comportamento. A disposição para cozinhar, organizar refeições e até manter uma rotina estruturada tende a cair. O autocuidado vai ficando mais automático, mais negligenciado e, muitas vezes, condicionado à motivação.

Mas existe uma diferença importante entre adaptar a alimentação ao frio e abandonar completamente a estrutura alimentar.

Cuidar da alimentação nessa época não significa evitar alimentos mais quentes, sopas, massas ou preparações mais confortáveis. Pelo contrário. O segredo está na forma como essas escolhas são construídas dentro da rotina.

Uma sopa, por exemplo, pode ser extremamente nutritiva quando inclui proteínas, legumes, verduras e boas fontes de carboidrato. Frutas podem aparecer aquecidas, em preparações assadas ou combinadas com canela e aveia. Vegetais podem ser incluídos em refogados, cremes e pratos quentes, sem que seja necessário depender exclusivamente de saladas frias.

A hidratação também merece atenção especial. No frio, a percepção de sede costuma diminuir, mas a necessidade de água continua existindo. E esperar sentir sede para beber água normalmente não funciona nessa época do ano.

Além disso, é importante lembrar que chás, apesar de serem aliados interessantes, não substituem completamente a ingestão de água ao longo do dia.

Outro ponto importante é entender que o frio não “estraga” resultados. O que costuma comprometer a saúde e a alimentação é a perda de regularidade, organização e equilíbrio por períodos prolongados.

Na prática, pequenas estratégias costumam funcionar muito melhor do que regras radicais. Ter preparações congeladas, facilitar o acesso a alimentos nutritivos, adaptar refeições para versões quentes e manter uma rotina mínima de cuidado faz muito mais diferença do que tentar seguir um padrão perfeito.

Porque saúde não depende de uma estação específica. Mas a forma como nos adaptamos a cada fase da rotina pode impactar muito nossa relação com a alimentação.

E talvez esse seja o principal ponto.

No frio, muitas pessoas esperam sentir sede para beber água, disposição para se cuidar e motivação para organizar a alimentação. E normalmente nenhuma dessas coisas aparece espontaneamente.

Por isso, mais do que motivação, o que realmente sustenta o cuidado nessa época do ano é estratégia.

Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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