Coluna Olhar de Dentro
Dia da Alfabetização: as letras que abrem o mundo
Antes de empresária, sou pedagoga de formação, e posso dizer
que existe um momento na vida de um professor que não se esquece jamais: aquele
instante em que as letras se acendem para um aluno, quando os rabiscos viram
palavra e ela vira mundo. Nesta semana, em que se celebra o Dia Internacional
da Alfabetização, instituído pela Unesco, dia 8 de setembro, é dessa chave que
abre todas as portas que eu quero falar.
Vamos começar por uma notícia boa: pela primeira vez em
quase uma década, a taxa de analfabetismo no Brasil ficou abaixo de 5%. Segundo
o IBGE, 4,9% das pessoas com 15 anos ou mais ainda não sabem ler e escrever. É
um avanço real. Mas, por trás do percentual, seguem 8,4 milhões de brasileiros
vivendo num mundo escrito que eles não conseguem decifrar, e mais da metade
deles são pessoas com 60 anos ou mais, gente que a vida privou da escola quando
era tempo.
E existe um segundo número, mais silencioso e talvez mais
preocupante. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional, o Inaf, cerca de 29%
dos brasileiros entre 15 e 64 anos, algo como 40 milhões de pessoas, são
analfabetos funcionais: leem as palavras, mas não compreendem plenamente o que
leem. Na prática, é o cidadão que assina o contrato sem entender as cláusulas,
que erra a dose do remédio por não decifrar a bula, que cai em golpe pelo
celular e que repassa mentira sem perceber. E o dado que mais dói: entre os
jovens, essa condição cresceu nos últimos anos. Estamos formando uma geração
que passa o dia lendo telas e nem sempre compreendendo o que lê.
E isso também tem consequências para a nossa democracia. A
falta de educação e de compreensão abre espaço para a desinformação e, com ela,
para decisões equivocadas. Quem não consegue interpretar uma notícia, comparar
informações, identificar uma mentira ou compreender minimamente as propostas de
quem pretende governar fica muito mais vulnerável à manipulação. E isso aparece
também na hora do voto.
Por isso, combater o analfabetismo não é apenas uma questão
educacional ou social: é também fortalecer a cidadania. A ignorância sobre os
fatos alimenta a incompreensão; e consquentemente dificulta o senso crítico; e,
sem isso, corremos o risco de tomar decisões importantes movidos por discursos
prontos, manchetes, boatos ou paixões, inclusive politicamente. Uma democracia
forte precisa de cidadãos capazes de pensar por conta própria, questionar,
comparar e escolher com consciência.
Alfabetizar, portanto, vai muito além de ensinar o bê-á-bá.
É dar a uma pessoa a capacidade de entender o mundo e de se defender nele.
A boa notícia é que nunca é tarde. As redes públicas
oferecem gratuitamente a EJA, a Educação de Jovens e Adultos, e cada adulto que
volta a estudar é uma vitória que contagia a família inteira. Se você tem em
casa ou na vizinhança alguém que carrega essa lacuna, incentive sem
constranger: a vergonha é o maior inimigo da matrícula. E há o que fazer também
com os pequenos: ler para uma criança desde o colo é o primeiro capítulo da
alfabetização dela. Dez minutos de história antes de dormir valem mais do que muitos
aplicativos.
Aprendi na sala de aula o que os anos só confirmaram: quem
ensina uma pessoa a ler muda o mundo dela para sempre. E um país inteiro que
lê, compreende, questiona e pensa por conta própria é um país muito mais
difícil de enganar, manipular ou passar para trás.
E você, para quem pode ler uma história ainda hoje? Ou quem
você pode incentivar, com carinho, a voltar a estudar?
Juçara Rosolen é mãe, cristã, empreendedora, palestrante e escritora. Juçara é formada em Pedagogia, Letras e Direito. Proprietária e fundadora do Grupo Aposerv, que há mais de 17 anos se dedica aos serviços previdenciários administrativos. É ex-presidente da ACINO e atual Presidente do Lions Clube de Nova Odessa

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